Quarta-feira, Dezembro 9

"O Livro do Homem"



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Comecei a lê-lo domingo à noite e terminei ontem. Louve-se o João Bonifácio (não conheço); o Francisco José Viegas que mo ofereceu; a Quetzal que o editou.
Se isto lhe parece asquerosa publicidade,
be my guest, esteja à vontade, facto é que há muito não tinha rido assim. Perguntou a minha mulher que coisa me dera, mas, sufocado, não pude mais que mostrar-lhe a contracapa. E melhor cumprimento não receberá um autor que o de, na calada da noite, pôr um casal a rir de tal modo que a cama treme e o cão, surpreendido com as gargalhadas, desata a ladrar.


Terça-feira, Dezembro 8

Não se metam comigo


Cacete, moca, varapau, marmeleiro... Camilo e o esquecido Arnaldo Gama deixaram descrições vívidas de como se fazia debandar uma feira, se rachava uma cabeça de uma só pancada, ou se matava outro numa questão de honra.

Mas as feiras tornaram-se uma monotonia e a honra também deixou de ser o que foi.

Não tenho ideia de como este veio aqui parar, mas há dezenas de anos que está à entrada da porta, escondido entre os guarda-chuvas. Apropriadamente feito em madeira de carrasco, dura como ferro, mede oitenta centímetros e faltam-lhe gramas para os dois quilos.

Não se metam comigo.

Segunda-feira, Dezembro 7

A verdade e a coisa pública

A pergunta data provavelmente dos netos de Adão, mas esses não dispunham das possibilidades publicitárias do Novo Testamento, e assim nos encostamos a Pilatos quando, com ênfase, queremos saber o que é a verdade.

Com a nossa e a alheia se confecciona a História, o curioso refogado de factos, mentiras e aparências que, segundo o interesse dominante, levianamente muda de sabor e colorido.

Por isso lhe digo que é tempo de ler ou reler a "História de Portugal" e o "Portugal Contemporâneo", de Oliveira Martins, e admirar-se, como eu em permanência me admiro, que desde há tantos séculos sejam diminutas as mudanças de atitude do bom povo português em relação à res publica e aos que a tratam como coisa sua.

Terça-feira, Dezembro 1

Intervalo

Até domingo interrompe-se a escrita. Vou matar saudades que nasceram aqui.

O Primeiro de Dezembro de 1944 (*)


A guerra assombrava então o mundo, mas nós, na tarde do 1º de Dezembro de 1944, vestidos com o uniforme verde e castanho da Mocidade Portuguesa, desfilávamos a cantar alegremente pelas ruas do Porto. Na Praça da Liberdade, onde com discursos e foguetes se iria comemorar a vitória alcançada sobre os espanhóis três séculos atrás, tinha sido erguido um estrado adornado de tapeçarias, guirlandas e escudos. Aí, sentados em cadeirões, generais e almirantes em uniforme de gala, dignitários de casaca, cónegos, bispos, senhoras agasalhadas em peles, aguardavam o começo das festividades. Desfraldados alegremente ao vento, por toda a parte se viam estandartes, guiões, pendões, flâmulas, bandeiras, galhardetes, e a praça ia-se lentamente enchendo de regimentos de soldados, de guarda-republicanos a cavalo, marinheiros, patrulhas da Polícia com majestosas Harley-Davidsons, ranchos folclóricos, pensionistas de asilos, órfãos da Casa Pia.

As janelas, as varandas, os passeios, estavam apinhados de gente, no ar pairava aquela alegria que costuma acompanhar o regozijo das vitórias. Nós, pequenos, tínhamos ido formar entre as tropas e a tribuna. Eu, mais pequeno que a maioria, estava na primeira fila.

Como éramos uns quinhentos demorámos a alinhar, mas quando as fileiras lhe pareceram razoavelmente direitas, o nosso comandante, um maricas com tanta brilhantina que vista de longe a sua cabeleira parecia um capacete, deu voz de "Sentido!" e ergueu os braços, o sinal para que mais uma vez cantássemos o hino da Mocidade.


"Lá vamos, cantando e rindo,

Levados, levados sim,

Pela voz do som tremendo,

Das tubas, o clangor sem fim.

Lá vamos, que o sonho é lindo,

Torres e torres erguendo,

Rasgões, clareiras abrindo.

Alva da luz imortal,

Roxas trevas despedindo,

Doira o céu de Portugal."


Agora, na calma do meu quarto de trabalho, soa em tais palavras um ridículo arcaico, mas cantadas a quatro vozes na Praça da Liberdade, com todo aquele aparato de bandeiras, uniformes, medalhas, trombetas reluzentes e armamento, causavam na espinha o arrepio das grandes emoções.

A banda da Marinha atacou em seguida os primeiros compassos do hino nacional e, como duma só garganta, da massa de povo e tropa levantou-se o terrível bramido da estrofe patriótica que, nos últimos versos, incita os cidadãos a deixar-se chacinar:


"Contra os canhões

Marchar! Marchar!"


Novo arrepio. Gritos e palmas de aplauso. Toque de clarim para o minuto de silêncio em homenagem aos mortos de 1640. Outra vez palmas, outra vez gritos.

Idoso, carregado de medalhas, um dos generais da tribuna aproximou-se então do microfone, pôs os óculos, agarrou as folhas de papel que um ajudante lhe estendia e, numa voz habituada a fazer-se ouvir nas paradas, atroou os ares com ditirambos à glória do nosso passado, à paz do nosso presente, ao imenso brilho que o futuro traria ao país. Tudo isso, segundo ele, graças a Salazar, o génio que simultaneamente nos protegia dos horrores da guerra e assustava de tal modo o inimigo que jamais teríamos de repetir os feitos heróicos da guerra pela nossa independência.

Ao longo discurso desse general, sucedeu outro general com outro longo discurso, depois um almirante, depois uma senhora, um dignitário de casaca e cartola, outro general, outra senhora, um cónego...

Tremendo de frio e ali há tanto tempo como que especado, não tardei a cansar-me de os ouvir. Contudo, defronte da tribuna, e tão perto dos dignitários que não somente lhes via perfeitamente as feições, mas podia mesmo distinguir pequenos detalhes - a verruga dum, a curiosa forma dos anéis doutro - eu não tinha qualquer possibilidade de sair da formatura e escapar-me para casa, como era meu desejo. Além disso o maricas vigiava para que nos mantivéssemos alinhados e erectos.

Os oradores continuavam, monótonos, repisando os mesmos temas, e ao meu cansaço sucedeu uma alarmante pressão da bexiga e um princípio de tontura. Custasse o que custasse eu não ia dar-me em espectáculo, desfalecer, ser levado numa maca e, na boca dos outros, ficar para a vida inteira "O Fraquezas".

O expediente que então me ocorreu, e salvou, poderá considerar-se infantil, mas satisfaz por certo alguma exigência profunda e oculta do meu ser, pois com o passar dos anos tornou-se um indestrutível hábito.

O general que nesse momento falava era um homem alto, ossudo, de orelhas grandes e descoladas. Despi-lhe as calças. Tirei-lhe a gravata. Abri-lhe a camisa. Arregacei-lhe as mangas. "Porque um regime justo como o nosso, que põe em prática os altos princípios da doutrina cristã..." Revirei-lhe o boné. "A palavra de Cristo e os valores do sistema corporativo são as colunas que mantêm..." Pu-lo a saltitar. Meti-lhe um girassol na mão. Seguiu-se-lhe o presidente da Câmara e com pequenas variantes apliquei-lhe tratamento igual. A uma matrona de uniforme e muitas medalhas, idem. Retirei os paramentos ao bispo. O almirante ficou de calção curto. Vesti de soubrette o coronel de cara dura.

Entretido nesse teatro e já esquecido da tontura e do cansaço, só dei conta que o comandante se viera postar ao meu lado quando ele ciciou com a sua vozinha aflautada:

- Do que é que estás a rir, ó palerma?

Por não responder apanhei três dias de suspensão às aulas, averbados na caderneta escolar, ferrete de rebeldia e primeiro passo no mau caminho das "ideias subversivas".

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(*) Este texto é o começo de um conto intitulado Um Mau Hábito – in O Milhão – J. Rentes de Carvalho; Editorial Escritor, Lisboa, 1999.

A fotografia é de Life Magazine, sem data, provavelmente dos anos 50.

Segunda-feira, Novembro 30

Seguidores

Isto de não andar uma pessoa ao corrente das coisas gera por vezes estranhas conversas. Quis ele saber quantos seguidores eu tinha, pergunta que assim do pé para a mão me fez franzir o sobrolho e procurar se não quereria dizer perseguidores.

- Não, não! Seguidores. Pessoas que seguem o teu blogue.

Eu não fazia ideia, ele explicou, procedemos à busca e encontrámos dois. Foi a sua vez de levantar o sobrolho, pois, como disse, quem tem um blogue arranja logo dezenas, talvez até centenas de seguidores. Isso funciona como uma espécie de aplausómetro, isso é que dá a medida da popularidade.

- Quantos mais seguidores, mais...

Completou a frase com um encolher de ombros, que tanto podia ser de estranheza pela minha ignorância, como de desdém pela escassez do interesse alheio.

Informei-me, e é facto: blogues há com dezenas e dezenas de seguidores, nalguns até se lhes vê o retrato.

Provavelmente pede-se à família, aos amigos, aos vizinhos e aos colegas que "sigam". O que pouco importa, pois deve ser reconfortante abrir o blogue e dar com aqueles rostos que confirmam a bela certeza: "Seguem-me, logo existo!"

Domingo, Novembro 29

Pobres e dependentes

Por vezes começa-se assim o dia, com a ilusão de que participamos na conversa e acenamos a nossa concordância.
De facto é mais que verdade: "Se não houvesse a Europa e se ainda houvesse Forças Armadas, já teríamos tido golpes de Estado. Estamos à beira de iniciar um percurso para a irrelevância, talvez o desaparecimento, a pobreza certamente."

Grato à Fernanda Leitão, que do Canadá mandou o link.

Sábado, Novembro 28

Esclerose múltipla, sexo e falta de vergonha

Na Ópera ou numa inauguração, nas muitas obrigações públicas a que o cargo obriga, vê-se por vezes Job Cohen, o burgomestre de Amsterdam, a empurrar a cadeira de rodas da esposa, que há muitos anos sofre de esclerose múltipla. É um momento que se observa com respeito.

Job Cohen (1947) catedrático de Direito, Secretário de Estado, desde 2001 burgomestre da capital. Apreciado por alguns, mal amado por outros, o seu cargo não é dos mais fáceis, nem a cidade é das mais dóceis.

Recentemente teve ele de se sujeitar a mais uma entrevista na televisão. O entrevistador pediu-lhe que, "para facilitar o contacto", tirasse como ele o casaco e se sentassem ambos no chão. O burgomestre obedeceu. Decorreu a conversa sobre os assuntos do costume, até que em determinado momento o jornalista quis saber se, mau grado a paralisia desta, ele e a esposa ainda tinham relações sexuais.

O burgomestre respondeu.

Desde então, nos momentos mais inesperados dou comigo a rogar pragas sem saber bem a quem:

- Se ao jornalista, que explicou que "é extremamente ténue a linha divisória entre o voyeurismo e o modo de discutir a intimidade"; que "a maneira como um político fala do sexo diz muito sobre os seus pontos de vista políticos"; além de que ele, jornalista, procura sempre "descobrir a charneira entre o que é privado e o que é público, pois só daí resulta o verdadeiro retrato do entrevistado".

- Se ao burgomestre, que não respondeu com um par de bofetadas.

- Se a este raio de mundo onde a norma anda em bolandas.

Sexta-feira, Novembro 27

Virgem

Se se lhe faz o balanço tem o preciso para a felicidade: saúde, rosto simpático, corpo bem feito, uma inteligência que não permite grandes voos mas livra das grandes decepções, bom emprego, carro de boa marca, dinheiro na Caixa, amigos e amigas por toda a parte.

Estranha-se que aos trinta e oito anos viva ainda com os pais, mas sabe-se que, filho único, lhe repugna deixá-los, já que, reais ou imaginários, ambos sofrem de múltiplos achaques.

Estranham também alguns que, mau grado muito namoro, não tenha nunca encontrado forma para o seu pé.

Compreendo-o eu, que às vezes lhe sirvo de confessor. A esta faltava a beleza, o mal doutra era a família, uma terceira passara da idade, aquela sofria de enxaquecas, a mais recente é só de festas, de viagens. E porque a religião mandava e o libido nunca o afligira, continuava virgem

- Aconteceu – disse ele tempos atrás, como quem dispara à queima-roupa.

Depois de uma noitada de copos e alguma coisa mais, a das festas conseguira levá-lo para a cama.

– Mas não foi o que eu esperava. Não deu certo.

Não explicou, nem eu quis saber as causas do desacerto, e mudámos de assunto. Desde então não voltou a procurar-me, mas faz pouco ouvi dizer que está noivo. Noivo da mesma com que não deu certo. De facto são muitos e bizarros os caminhos que levam ao matrimónio.

Quinta-feira, Novembro 26

A arte de receber

Porque será que certas pessoas generosas sabem dar, mas desconhecem a arte de receber? Com algumas tem-se a impressão de que por muito que se lhes dê nunca é de sobra, suficientemente bom ou interessante. Esticam a corda, puxam mais um bocadinho, surpreendem-se de que não rebente, o seu prazer reside talvez na febre da expectativa, no temor do risco.

Regra geral chega sempre o momento em que a corda rebenta mesmo, e então, tarde demais, tudo são desculpas e explicações, queixinhas, pasmos inocentes.

À medida que o tempo passa e as decepções vão aumentando, o círculo das amizades encolhe, antes de se dar conta anda a gente a cantar Me and my shadow.