Quarta-feira, Julho 15

Crise de habitação


A ver se consigo escrever isto sem ironia, não venham os devotos de São Francisco de Assis guerrear comigo.

Noutras latitudes passará por absurdo, mas na Holanda é incrível o que se mede, se conta, se calcula, leva-se muito a sério o provérbio que diz: "Medir é saber" (Meten is weten). Assim, faz algum tempo, os amigos da passarada notaram diminuir nas cidades o número de pardais. E os pardais são assunto sério. Por exemplo, aos domingos de manhã há um proggrama de rádio imensamente popular, no qual das oito às dez só se fala de pássaros.

E o ano passado, quando apareceu em Groningen um bando de catorze Passer hispaniolensis,(*) o acontecimento foi notícia de primeira página e prime time, deslocou-se lá gente como quem vai de romagem a lugar santo.

Fizeram-se, pois, pesquisas para determinar a razão de haver menos pardais, concluindo-se que a culpa era dos telhados, porque os telhados não oferecem condições favoráveis para a construção nem para a defesa dos ninhos. Averiguou-se, mediu-se, estudou-se, chamou-se um arquitecto, actualmente há firmas a fabricar uma espécie mezzanine para os beirais, onde, com conforto e segurança, a pardalada vai poder procriar e viver sem preocupações de maior.

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(*) Ao que parece este pardal só existe em Espanha e é mistério que tenha voado para aqui.

Terça-feira, Julho 14

Repetição

Uma desgraça nunca vem só. Em 13 de Maio passado tinha eu posto esta notícia.

Faz uns dois dias os senhores (ou os computadores) da Shit yle recomeçaram a mandar convites, champanhe e beijinhos… tudo virtual.

Claro que quem, por curiosidade, vai ver o que é, acontece-lhe como a mim e, involuntariamente, automaticamente, passa a mandar beijinhos e abraços a meio mundo.


Quarta-feira, Maio 13

ASNEIRA GROSSA

Asneei. Através de uma coisa que se chama Shtyle.fm uma simpática mandou-me um convite. Como era simpática aceitei, mas esqueci-me de ler aquelas letras pequeninas do que se chama Terms of Service, que é onde se acham escondidas as ratoeiras. E agora pago a asneira. Ignorei que o Shit yle se dava o direito de piratear os meus endereços, e assim acontece que, contra vontade, estou a mandar presentinhos e pedidos de amizade a toda a gente, inclusive firmas, associações, bandas de música, circos, latoeiros, supermercados, funerárias...
Quem receber esse lixo faça favor de desculpar. Amizades, electrónicas ou não, tenho que chegue.

Segunda-feira, Julho 13

Outra vez

De novo se muda a apresentação. É aborrecido, mas não há remédio, porque o Blogger continua a "comer" as primeiras letras de cada linha.
Há quem afirme que a culpa é do Firefox e que com Internet Explorer isso não acontece.


Domingo, Julho 12

Sem gajas, sem futebol

Compatriota lisboeta.Visita Amsterdam umas quantas vezes por ano, por interesses que não vem ao caso detalhar aqui. A tradição manda que almocemos à portuguesa e, conforme a estação do ano, cavaqueamos depois no café ou numa esplanada, desta vez numa à beira do canal onde há boa sombra.

Falamos de blogues. Ele colabora num em que o número de visitantes diários passa de dois mil. Digo-lhe a minha inveja e ele pergunta quantos vêm ao Tempo Contado.

- Duas semanas atrás andava a média pelos cento e cinquenta, depois começou a descer e de momento roda os setenta e pico.

- É pouco. De facto é nada. E sabes porquê?

Esperava eu palavras de comiseração, desata ele, homem de muitos e bons negócios que é, a enumerar os motivos do meu falhanço:

- O teu blogue não tem sexo, nem futebol! Não tem gajas! Não tem histórias interessantes!... Patifarias dos políticos? Escândalos? Não tem!... Actualidade? Não tem! Ilustrações? O que lá está…

- Eu sei o que lá está.

- E não é só isso! Escreves umas coisas, mas vendo bem não és um verdadeiro blogger. Não aceitas comentários, não interages com os outros blogues!... Links, raramente aparece um… Se mudasses de temas e de estratégia…


A conversa prolongou-se, a despedida foi cordial. Mais tarde, rememorando, concordei que não sou um verdadeiro blogger. Importa-me isso? Não. Como pouco me importam etiquetas e estratégias. Agora se em vez de umas poucas dezenas aparecessem por aqui uns milhares de visitantes, de certeza abria o champanhe. Mas sem gajas, sem futebol!...

Sábado, Julho 11

Plágio


Já tudo foi dito, inclusive as asneiras.


Há dois dias que esta frase me anda na cabeça. Antigamente não me custaria jurar a paternidade, mas os anos tornaram-me cauteloso. Será que ma disse alguém? Que a li algures? Ou que de facto a gerei durante um jantar, com dois convivas pomposos?

Dois daqueles que tudo sabem e de tudo discutem com autoridade definitiva, desde as complicações do Afganistão ao aumento do crude, da cirurgia plástica de Berlusconi à fragilidade do Airbus.

Se há plágio é involuntário, mas na verdade já tudo foi dito, inclusive as asneiras.

Sexta-feira, Julho 10

Imitando

Raramente nos queixamos do que dói fundo, e só de longe a longe as palavras ditas traduzem o que nos vai no pensamento. Calculados ou não, são ambíguos os nossos gestos, os nossos olhares. Gastamo-nos nas aparências. Sorrimos sem vontade. Choramos para que se veja. Fingimos zangas, carinhos, temores, afeições, devoções. Enganamos e enganamo-nos.

Uns atrás dos outros, logo de manhã cedo, todos os dias subimos ao palco a imitar a vida.

Quinta-feira, Julho 9

Exemplar


Nederlandse Spoorwegen, a companhia neerlandesa de caminhos de ferro, explora uma das redes ferroviárias mais densas do mundo, emprega à volta de 26.000 pessoas, transporta diariamente 6,7% da população do país, explora linhas de caminhos de ferro na Inglaterra e na Alemanha, linhas de autocarros, etc...

Bert Meerstadt, engenheiro mecânico, é aos quarenta e sete anos o patrão-mor de tudo isso.

Passando agora ao verdadeiramente interessante: quando em 2001 entrou para a NS como director, Bert Meerstadt resolveu tirar o diploma de maquinista. Desde então, um dia por mês, em lugar das aborrecidas tarefas de presidir reuniões, inaugurar apeadeiros e cortar fitas, Bert Meerstad pega na folha de serviço, sobe para a locomotiva e vai fazer as suas oito horas de maquinista.

Não conheço o homem, mas conheço uns patrões, grandes e pequeninos, que bem o poderiam tomar como exemplo.

Quarta-feira, Julho 8

Boa surpresa


Queixava-me esta manhã da falta de tempo, dando e dando-me desculpas várias para os muitos atrasos, e vai o acaso faz-me esta surpresa.
Li-o de fio a pavio, alegrei-me com o conteúdo e quase bati palmas. Se os livros lhe interessam, não perca. E agora desculpe, que já estou mais que atrasado.

Terça-feira, Julho 7

O Rolodex


Era prático, útil, ficava bem numa secretária, e sobretudo dava um ar de organização aos desleixados.

- Procura aí no Rolodex.

Ao ouvir aquilo, os menos entendidos olhavam com respeito o aparelho que, na sua simplicidade, provavelmente encerrava segredos e mistérios.

Com a chegada do computador foi desaparecendo aos poucos. No meu, velho de trinta anos e pico, as fichas amareleceram, e nelas quase só se encontram os nomes de falecidos. Porque o guardo? Nostalgia e uma pontinha de vaidade antiga.

De vez em quando um ou outro jovem pergunta:

- O que é aquilo?

- É um Rolodex.

Em geral estranham que não tenha motor, mas não querem saber mais.

Segunda-feira, Julho 6

Meia página

Era pequenino, muito mexido, acompanhava o que dizia com os salamaleques a que se habituara na sua vida de lojista. Dessa vida guardara também o vestir irrepreensível, o vinco das calças, os sapatos lustrosos da graxa, a risca no cabelo, e um modo prestimoso que se tornava aborrecido com a repetição de "Ora faça o favor".

- Estava eu no consultório do Professor Abreu de Faria Perestrelo, tinha lá ido por causas dos meus problemas da coluna, quando a tal senhora entrou. Levantei-me, ora faça o favor, e diz ela…

Desagradável era também, quando se entusiasmava, o modo de pegar o interlocutor pelo braço. Porque uma vez agarrado, usava os dedos com a mesma intenção de quem sublinha o que escreve, e espetava as unhas, torcia, empurrava, puxava, abanava…

- Claro que tenho confiança nos médicos, e o Professor Abreu de Faria Perestrelo já me trata há muitos anos, mas numa situação dessas, ora faça o favor…

Vai hoje a enterrar. Liberto, enfim, de uma vida de muitos sofrimentos e reveses. Falido, passou de patrão a empregado, reformou-se, adoeceu.

- Ora faça o favor de ouvir. Só para o coração são vinte e dois comprimidos! Oito de manhã, seis ao almoço, outros seis antes do jantar, dois quando me deito.

Com a primeira mulher, uma desvairada, sofreu aflições que teriam levado outro ao manicómio ou ao suicídio. Dos braços dessa caiu nos da D. Micas. Granadeira na corpulência e no modo, amiga dos copos, sempre a avisá-lo durante as zangas:

- A casa é minha. Quem não está bem muda-se.

Para o hospital tinha ido sozinho, e quando ela a meio da tarde o foi visitar encontrou-o morto.


O que acima se lê é ficção com dois dedos de verdade. A ficção que se escreve para mascarar a surpresa, e o medo, de que uma longa vida cabe em meia página.

Sábado, Julho 4

Virgindade

Ouvi-o e custou-me a acreditar. Depois a internet confirmou que realmente existe, e até pode ser que haja mais, mas esta, a Aquarion, School for LoveLife & Leadership, perto de Utrecht, é a que interessa.

A sua finalidade é de, por meio de cursos teóricos e práticos, assistir quem, por toda a espécie de razões e às vezes já perto do meio século, ainda é virgem e quer pôr fim ao que neste nosso tempo passa por aberração.

O meu primeiro e despropositado impulso foi chacotear. Então com estas liberdades todas e possibilidades que nunca mais acabam ainda haverá virgens de cinquenta anos? Mulheres, provavelmente, mas homens?

Depois, informando-me, ao confrontar a miséria alheia foi-se-me a chacota, e com este documentário apiedei-me.(*)

Até à data oitenta e cinco dos meus semelhantes pagaram cada um cinco mil euros pela teoria, as aulas práticas e o primeiro moment suprême.

Só a quem o teve de graça parecerá caro.

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(*) O documentário é da RTL4, quase todo falado em inglês, e encontra-se aqui:

http://www.rtl.nl/components/videorecorder/shockdoc/miMedia/2008/week38/do22.Shock_Doc_Virgin_School_18-09-2008_1_1.xml

Sexta-feira, Julho 3

Flanela

"Na vida doméstica inglesa, a novela tornou-se um objecto de primeira necessidade, como a flanela ou as fazendas de algodão; e, portanto, toda uma população de romancistas se emprega em manufacturar este artigo, por grosso, e tão depressa quanto a pena pode escrever, arremessando para o mercado as páginas mal secas no ansioso conflito da concorrência."

Eça de Queirós - in Cartas de Inglaterra - (1880)

Quinta-feira, Julho 2

Este vai longe


Arte abstracta, instalações, performances A reacção que em geral me causam essas e mais expressões artísticas é a de desatar a rir, e o mesmo ressinto com a linguagem esotérica dos apreciadores.

Não precisam de me dizer, porque também o sei, que no meio dos charlatãos há gente íntegra, dedicada e talentosa. O que acontece é que não são os bons, os competentes, quem geralmente leva a melhor, mas os habilidosos, os malabaristas que convencem o povinho de que o rei não é tolo nem vai nu.

No bosque onde passeio o cães desenvolve-se agora um projecto artístico. Não vou comentar, porque por um nada se sofre um AVC e a minha intenção é irritar-me por mais uns anos.

Há por ali vitrinas meio enterradas, cadeiras penduradas em árvores, uma mesa com folhas, ramos e sujidade tirada do chão…

O jovem artista na fotografia cortou e enrolou ele próprio um tapete de relva que pesa trezentos quilos. Com a sua obra pretende referir-se à história do parque, "que só é natureza na aparência, pois foi todo plantado."

Duma coisa estou certo: este vai longe.

Quarta-feira, Julho 1

Vida de cão

(Clique para aumentar)

A probabilidade é grande que você não se levante como eu, às cinco da manhã. Nem que por volta das seis caminhe durante cerca de uma hora com dois cães no parque fronteiro.

Um à trela, porque desata a correr ao cheiro dos coelhos. Esse arrasta-me e obriga-me a marcha forçada. O outro vai solto, mas madraço que é atrasa o andamento. Segue-se o pequeno almoço geral.

Às nove, quase trinta quilómetros de ida-e-volta para levar os dois senhores a um bosque onde podem correr em liberdade. Almoço para todos.

Às três da tarde, passeio de meia hora no parque para alívio da bexiga e dos intestinos. Jantar às sete. Às nove e meia a ronda da noite, mais uma hora com muito farejar, festejar e ladrar com os semelhantes.

Entretanto há que fazer-lhes festas, levá-los ao veterinário, à tosquia… Eu, sempre atrasado, barbeio-me de três em três dias, faço o que posso para tratar do que não sofre demora, alinhavo isto, ajeito aquilo, remendo o outro, desculpo-me, agito-me, com alguma sorte caio na cama depois das onze.

Vida social? Nenhuma. Vida familiar? Idem. Divertimentos? Nicles. Televisão não vejo, jornais não leio. Livros? Uma página e turvam-se-me os olhos de sono. Sem internet nem me saberia no mundo. Às cinco o despertador volta a tocar.

Agora pergunto: quem é que no meio de tudo isto tem vida de cão?

Terça-feira, Junho 30

Alma, fígado e Moon Walk

Uma boa dose de indiferença ajuda o bem-estar da alma e a saúde do fígado. O problema é que a indiferença, a genuína, tem de ser de fabrico próprio, não se compra em pílulas ou injecções.
Nesse particular da indiferença, confesso, encontro-me abaixo da média. Antes de me dar conta do que acontece e accionar o necessário travão, já o humor se me azeda.
Oiço um coreógrafo fazer estas afirmações profundas: "O homem é um ente desesperado, muito preso ao ser. Nasce e morre. Entretanto procura-se a si mesmo, cercado por uma natureza indiferente."
Essa convicção leva-o a que, no seu último bailado, os bailarinos e bailarinas dancem num palco quase às escuras, para que não se distingam os homens das mulheres, e assim , "sem o preconceito do sexo, o espectador se dê conta da libertação de energia".
Pergunto-me: não seria mais saudável e mais de adulto – para não dizer de sábio ancião – atentar nestas coisas com um sorriso de indiferença? Pois seria. E mostrar-me também complacente para com o amigo, passado dos cinquenta e idólatra de Michael Jackson, que numa voz perturbada me confessou ressentir a morte do cantor como uma tragédia pessoal.
Despedi-me apressado, temendo que ali na esplanada, e naquele estado de espírito, me presenteasse com uma interpretação do Moon Walk

Segunda-feira, Junho 29

Parkpop


No passado fim-de-semana mais de 275.000 tomaram parte no Parkpop, o maior festival de música pop ao ar livre na Europa. Grande e grátis.

Durante dois dias e noites um ajuntamento de mais de um quarto de milhão de pessoas nada mais fez do que ouvir música.

Sempre me desagradaram as multidões e desconfio dos êxtases e entusiasmos colectivos. Um fenómeno como o Parkpop, em vez de me alegrar, acorda em mim a desconfiança e o medo do rebanho.

Domingo, Junho 28

Sitemeter

Passadas quatro décadas desde que foi publicado o meu primeiro livro, dou-me conta da interessante diferença que existe (ou eu faço) entre o leitor da minha prosa e o leitor/visitante deste blogue.

Tirante as excepções de um esporádico contacto postal ou pessoal, o primeiro sempre foi para mim uma presença traduzida em números. Tantos exemplares vendidos, tantas pessoas que sabem da minha existência. Por vezes, o acaso de uma janela aberta deixa entrever uma estante, e posso perguntar-me se porventura haverá ali um livro meu, mas passo adiante. Noutras ocasiões um desconhecido refere que leu algo de mim, sorri, e perde-se na multidão. Grosso modo o contacto não vai mais longe.

Com este blogue, porém, a situação é diferente. Umas vezes um pouco mais, outra vezes menos, anda em média à volta da centena o número de visitantes diários, e é felizmente escasso o número daqueles que por e-mail me contacta. Digo felizmente porque, fossem muitos, não lhes poderia responder.

Com todos, porém, estabeleço uma curiosa e anónima relação de sentido único. Graças ao Sitemeter, e ao contrário do leitor dos meus livros, sei em geral onde se encontram, a que horas me procuram, quantas e quais páginas leram.

O ritual da minha visita nocturna ao Sitemeter dispara então a fantasia. Em Lisboa, no Mato Grosso, na Califórina, Viseu, Alemanha… Quem será ? Mulher? Adolescente? Homem? Que fará? Por que terá vindo?

Entro assim num jogo de imaginar pessoas e atitudes, lugares, ambientes, estabeleço com esses anónimos um impossível diálogo, tornam-se eles para mim uma companhia que, não sendo por inteiro concreta, ultrapassa o virtual.

Sábado, Junho 27

Ftalates

Está você na força da vida, tem planos para procriar e perfuma-se em demasia? Aftershave, colónias, essências disto e daquilo?

Fique a saber que corre o risco de que a sua esperma seja umas cinco vezes menos fértil do que a do sujeito que não se perfuma. Causam isso os "ftalates" ((C8H4O4R1R2) grandes perturbadores do equilíbrio hormonal, usados para que o perfume se mantenha mais tempo activo.

Ao que parece o efeito nocivo é conhecido há muito. Mas agora a indústria dos perfumes promete que vai fazer o possível para resolver.

Não se assuste. Deixe o perfume, e até pode acontecer que ela goste mais de si.

Sexta-feira, Junho 26

Chá

Hesitei uns dias, porque não sabia – e ainda não sei – qual a melhor ponta por onde lhe pegar.

O presidente Medvedev esteve em Amsterdam para inaugurar a dependência do Hermitage de São Petersburgo e o protocolo ofereceu-lhe uma volta de barco pelos canais.

Na Holanda há aquele entranhado mito de que, cidadãos, somos todos monotonamente iguais. Por conseguinte, se você faz o chá com um saquinho, o primeiro-ministro faz igual, e não vá o presidente da Rússia julgar que é mais do que nós, diferente, ou melhor. Se quer chá faça-o ele próprio mergulhando o saquinho na água quente.

Na Holanda há também aquela virtude de fazer tudo simples e baratinho. Uma fatia do bolo chega. O bolo inteiro seria um impensável desperdício.

Guardanapos? Os de papel são bons para mim, para si, para presidentes e majestades.

Na certeza de que faz como deve ser, o primeiro-ministro Balkenende prepara o chá e já comeu metade do doce. O presidente russo não tocou em coisa nenhuma. Se não me engano, o ar com que olha é de divertida ironia.

Felizmente que no dia seguinte viajou para o Egipto, terra de grandes desigualdades e faraós, mas onde, desde pequenos, todos aprendem a tomar chá.

Quinta-feira, Junho 25

O macroacto ilocutório

Os novos não querem ouvir, não se interessam, diz ele. Eu tãopouco o quero ouvir e dispensava a conversa, mas tem-me ali como refém, o remédio é aturar.

Se bem compreendo gostaria de escrever uma espécie de "Carta de Guia de Casados", dirigida a um certo tipo de rapaz que, nestes tempos de ascensão feminina, lhe parece mal preparado para o casamento.

Sabia eu que há um tipo de mulher que parece incapaz de apagar as luzes e as deixa sempre acesas, às vezes de dia e de noite? Sabia eu que muitas mulheres têm o sono inquieto, e isso se reflecte no descanso nocturno do cônjuge? Que há mulheres que, devido às espinhas, não gostam de peixe? Que está cientificamente provado que uma mulher demora até cinco vezes mais do que um homem a fazer compras no supermercado? Que logo nos primeiros meses do casamento um grande número de mulheres hostiliza abertamente os maridos? Que certas mulheres…

Perco-me com a lista, distraio-me, o pouco que me resta de atenção foca-se no seu vocabulário: falou de "cônjuge", diz que quer "tanger a questão", "delimitar as possibilidades", "optar por um claro estatuto metaenunciativo"…

E porque estudou o que se chama ciência da literatura, atira-me com a necessidade de no futuro livro "desenhar, num macroacto ilocutório, a orientação configuracional do discurso."

Sinto ouras. Deixei de ouvi-lo. Esforço-me em vão por recordar se é casado.

Quarta-feira, Junho 24

Traição

Não custaram uma fortuna, mas gastei neles um ror de dinheiro. Uma excepcionalmente erudita Moderne Encyclopedia van de Wereldliteratuur em 10 volumes; a edição compacta do Oxford English Dictionary – os dezassete volumes comprimidos em três, numa letra miudinha que necessita lupa; os restantes dicionários, se os conto, ultrapassam os cinquenta; duas enciclopédia, um sem-número de volumes de referência…

Fazem-me companhia há décadas, mas o Google ganhou.

Imóveis e inúteis como anciãos num Lar, só esporadicamente lhes toco, mas quando o faço sinto o remorso de quem traiu.



Terça-feira, Junho 23

Gay, careca, viúvo...


É melhor calar. Custa, mas é melhor. Deixar passar, dizer-me que o mundo é assim. Aceitar.

Foram os "romances" escritos em sms e agora fazem-nos no Twitter, de certeza com muitos Ughs! Grss! e Fuck!.

As pequeninas dos jardins de infância desfilam em concursos de Miss Escolinha. Aqui no bairro põem putos de cinco, seis anos a desancar-se no Kick Box. Com treinadores, assistências, campeonatos e taças.

O jornal respeitável que costumo ler, trazia no sábado uma página dupla com apenas fotografias de cozinhas sujas.

Leio num só dia: (O escritor brasileiro) Bernardo Carvalho escreve realmente muito bem. Por acaso é gay." "David Leavitt the gay author of The Indian Clerk". "…recordando Pasolini, o escritor gay que…"

Porque não usar também, heterossexual, careca, viúvo… Será que uns têm valor acrescentado e outras são apenas qualificativos banais?

Deixar passar. O mundo é assim. Mas refilar, refilar.

Domingo, Junho 21

Pecadora


Vai, pecadora arrependida
Vai tratar da tua vida
Por favor, me deixa em paz
Me deste um grande desgosto
Eu não quero ver teu rosto
Palavra de rei não volta atrás
Eu quero um amor perfeito
para aliviar meu peito
que por ti já padeceu demais (ai, demais...)

Agora tens o mundo aos teus pés
a caminhar
Cansei-me de sofrer,
Cansaste de errar
Eu plantei flor, colhi espinho
Mas agora arranjei outra
para me fazer carinho
Vai pecadora!


Rio de Janeiro fins de 1965. Você entra por acaso na loja, ouve a canção, gosta, pergunta, compra. Quando sai já sabe quem é o Jair do Cavaquinho, conhecido depois por Joãozinho da Pecadora, admira o Paulinho da Viola.

Perdeu-se o disco entre o considerável monte de LP's acumulado numa pré-história em que a música brasileira era importante para o meu sentir. Encontrei-o ontem. Outra surpresa: não tinha esquecido a letra. Cantei. Daí fui-me à cornucópia do YouTube e voltei a cantar, acompanhando Paulinho e Maria Bethânia. Vá ouvir. A canção começa aos 2'10 da faixa.

E se alguma vez se atravessou uma pecadora na sua vida, cante também, sorria como eu sorri.

Sábado, Junho 20

Biografias

Biografias sempre li bastantes e de modo geral com agrado. No início, supondo que aprenderia com as vivências doutrem, mais tarde levado sobretudo pela curiosidade, fazendo aferições entre a minha e a vida alheia, uma forma de voyeurismo.

Em certo momento, perguntando-me se teria interesse deitar-me a escrever uma autobiografia, concluí pela negativa. É que forçosamente iria mentir, ajeitar, pintá-la de ficções, pôr suspense na banalidade. E sobretudo esconder. Tanto por vergonha como por aversão ao ridículo.

De modo que não me vejo a escrever a minha autobiografia, pois o resultado seria uma coisa híbrida, nem carne nem peixe, meias mentiras, meias verdades, gris e nevoeiros, alçapões, portas falsas, olvidos, alindamentos, paisagens trompe l'oeil

Dessa introspecção resultou também que agora, ao lê-las, as meço por mim, e tento descobrir nas entrelinhas as verdades que as biografias escondem.

Sexta-feira, Junho 19

O fado já não é só nosso